Graças ao
Twitter, comecei a acompanhar o
Diário de uma Corte, um conto muito interessante que está sendo escrito pela
@Batizada em seu blog
Meu Milagre. A estória ainda está em seu início, mas já promete ser extremamente interessante, por abordar a vida de uma adolescente sem os clichês que estamos acostumados nas leituras
gospel comuns. A estória é contada do ponto de vista da adolescente, mostrando abertamente seus pensamentos, medos e anseios.
Mas não vou ficar aqui contando a estória. Se quiser saber mais acesse o
blog Meu Milagre e acompanhe a estória de perto. Quero falar aqui de alguns detalhes não muito agradáveis do dia a dia na igreja que muitas vezes passam despercebidos por nós, seja por causa do costume com tais fatos ou por puro comodismo.
Como a abordagem da autora não está presa a falsos moralismos, ela faz despontar na narrativa alguns fatos que poderiam até mesmo passar como normais por algumas pessoas, visto que estamos muito acostumados com eles, mas que chamaram muito a minha atenção:
A pregação usada como mural de recados.
"Já estou vendo meu pai no culto de domingo avisando que os líderes não podem ficar faltando essas reuniões por causa de chuva. Como sempre, lá vem sermão…"
É incrivelmente assustador o número de vezes em que vemos a pregação, que deveria ser o compartilhamento do conhecimento acerca das coisas de Deus, ser usado para chamar a atenção de alguns sobre temas pontuais. Algumas pessoas parecem acreditar que constranger as pessoas tratando de seus assuntos muitas vezes pessoais daquele lugar a um metro acima dos outros é mais eficaz que uma conversa franca e direta.
É como se acreditassem que ao subir no altar fossem dotados de poderes especiais e imunidade total, permitindo que falem (velada ou até mesmo abertamente) dos erros de membros da congregação e isso se torne a coisa mais normal do mundo.
Se alguns faltam a uma reunião, o assunto da pregação é o compromisso.
Se o caixa da igreja anda mal, fala-se exaustivamente de dízimos e ofertas.
Se aparece uma fofoca sobre a vida de algum membro o acusando dos considerados "pecados da carne", santidade será o próximo assunto do púlpito.
E isso é quando não surgem comentários diretos, causando extremo constrangimento aos envolvidos.
Esquecem da riqueza das relações pessoais, da eficácia de uma conversa franca, direta e reservada. E quando isso se torna uma constante na congregação, as pregações perdem seu sentido e passam a ser apenas um meio prático de manobra do rebanho na direção mais conveniente par os que lideram.
O controle toma o lugar da confiança
"na mesma hora ele ligou para o Joel, o líder dos jovens da minha igreja, e falou que ele deveria ir já que muitos adolescentes do grupo iriam"
Entendo perfeitamente a preocupação de um pai (que no caso citado é também o pastor) com sua filha, entendo que ele quer que os adolescentes de sua igreja tenham um acompanhamento em suas vidas. Mas o que não entendo é quando esse acompanhamento se torna uma forma de rédea na vida das pessoas. Eu acredito firmemente que educar é melhor que controlar, acredito que quando adolescentes são submetidos a um monitoramento intenso de tudo o que fazem eles sentem como se as pessoas não acreditassem neles, e isso os impede de amadurecer essa relação de confiança com seus pais e líderes. Lembrando também que essa presença constante de uma figura de controle impede com que os adolescentes conversem mais abertamente entre si e criem laços verdadeiros de amizade e confiança, porque convenhamos: não é sobre tudo que um adolescente se sente a vontade para falar com uma figura de autoridade, nesses assuntos eles recorrem à amizade.
Isso me fez lembrar um fato que ocorreu comigo:
Certa vez (eu tinha uns 18 a 19 anos) estávamos eu e um grupo de amigos, da igreja, jogando sinuca em certo bar aqui na cidade. Poucos dias depois chega perto da minha mãe uma "irmã" da igreja e é travado o seguinte diálogo:
- Seu filho e os amigos foram vistos no bar tal jogando sinuca e enchendo a cara.
- Que ele estava em um bar: eu não duvido. Jogando sinuca? Eu tenho certeza que estava. Mas se embriagando? Com certeza não.
- Mas como você pode falar isso se você não viu?
- Eu conheço o filho que criei.
Isso foi o fim da discussão. Contra uma relação recíproca de confiança não existem armas.
O medo do adolescente em não corresponder aos padrões impostos
"mas comigo a pressão é maior afinal sou a filha do pastor."
O padrão religioso evangélico atual cria vários modelos nos quais as pessoas, incluindo os jovens e adolescentes, precisam se enquadrar. Não é só os que vivem uma relação de parentesco com os líderes, como nossa protagonista, que sofrem isso. A pressão para se adequar a regras que muitas vezes nem mesmo se entendem é um peso muito grande para se carregar.
Tenta-se limitar o comportamento das pessoas as impedindo de certas coisas em uma busca inútil de blindá-la dos acontecimento ditos seculares. Mas como já disse: essa busca é inútil. Invariavelmente pessoas cometerão erros, isso está enraizado em nossa natureza e é essencial para nosso amadurecimento. Porém como sentem medo de não se encaixar no padrão imposto, ao errar essas pessoas simplesmente escondem seus erros com medo do julgamento dos outros. E, sozinhos, não conseguem aprender com os próprios erros.
Não estou aqui defendendo a anarquia religiosa. Não estou dizendo que pessoas devem ser educadas sem regras. Estou dizendo sim, que regras devem ser entendidas e aceitas, não impostas.
Nossas vidas são moldadas por diversos paradigmas, e na maioria das vezes eles não são ruins. Porém devemos sempre questioná-los, pois só CONHECENDO a verdade é que ela irá nos libertar.
Por hora, paro por aqui. Mas use o espaço dos comentários e diga você também quais comportamentos ditos normais você considera nocivos.
Vivendo, errando e aprendendo,
Martins
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